quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Incerteza


Chega a hora de jantar e os ponteiros acelerados caminham para as oito horas da noite. Eu não. Em jeito de passeio de domingo, caminho tranquilo pelo cais, rumo ao meu local de trabalho. Persiste o cheiro a peixe no ar, embora o cais vestido de cimento nada denuncie. Ainda tenho tempo antes de embarcar. Sento-me nas escadas e olho para a Luís Adrião. Começo a tentar imaginar a noite de faina que poderei ter. Há o reconhecimento da incerteza e da incógnita que cada dia nos traz. Recordo antigas pescarias e estórias que cada tábua pode partilhar. Embarco. Uma noite no beliche. O motor é a minha música de elevador. Está calor, muito calor. O odor do gasóleo toma conta da atmosfera e mistura-se com o da conserva que um camarada janta a estocadas de navalha. Com mais uma corrente de ar, contemplo um nevão de escamas perdidas. Adormeço. A noite passa. O sol rasga a terra. Acordo. A rede sai. A cavala entra.


Incógnita
 
 
(Text & Photo - Luís Pinto Carvalho - All Rights Reserved)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

À carga


Pelos faróis de navegação, há uma sensação imediata da chamada carga, o carrego e a expressão deliciosa da “estrela a beber água”. Na proa, os 12 pés estão muito lá para baixo. Cá em cima, a cavala, muita, às toneladas. Não há mais nenhuma traineira no cais. A chegada é solitária. Está tudo a postos. Perto de 20 homens vão conseguir processar 35 toneladas de cavala em apenas 3 horas. Confusão não existe. O Mestre opera a grua de descarga das caixas isotérmicas, as chamadas dornas. Tem um sorriso contido. Quase não se percebe. Dele. Quando a luz deixa, as farripas de cabelo, suadas e coladas à testa, perdem a vergonha e mostram-se para além da pala do boné. Orgulho. O cenário é apocalíptico ao senso comum, mas, passados meros segundos, aquela pseudodesorganização funciona ao milésimo. Todos sabem onde estar e o que fazer. Aqui há uma companha. E, numa voz de comando, o Mestre manda soltar amarras para mais uma faina.
 
Cavala


 
(Text & Photo - Luís Pinto Carvalho - All Rights Reserved)

terça-feira, 17 de julho de 2012

Na mira

Falhámos a última Lua Nova, mas agora que o Quarto Minguante começa a descair, a sardinha está a regressar forte e feio, de Norte a Sul. No entanto, há que dar mérito a quem a procura e onde palpita que ela estará. Recordo os tempos das sondas de agulhas, a preto e branco, as largadas à branca, no sítio certo, na hora exacta, mestres na proa, atirando pedras para a estiva, obrigando o peixe a dar ao rabo para a bomba. Na altura em que os sonares não passavam de ficção científica, sondas a cores nem pensar. Nunca nos deveremos esquecer que foi o Homem que inventou a tecnologia. O saber, a gira, o golpe de rins e, acima de tudo, o saber, são todos dele. Na mira, a Luís Adrião avança para mais uma faina.
Avança


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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Horizonte

Partimos rumo ao desconhecido. Quando abandonamos terra, tornamo-nos numa outra pessoa em nós próprios. Assumimos uma outra identidade. Aquela salgada, que o meio assim o exige e que nos molda. Os olhos estão postos no horizonte. Mas levamos connosco todos aqueles que ficaram para trás. O significado da palavra família ganha outros contornos. Afinal, nestes singelos 23 metros de madeira passamos mais tempo do que com aqueles a que convencionalmente chamamos família. No entanto, embalados pela melodia da maresia, aqui também há família. Laços fortes que nos unem. Sorrisos que só têm valor quando se valorizam os arrufos. Quando alguém tem a coragem de reprimir, de ser directo, olhos nos olhos, traduz-se em respeito e preocupação. Aqui há família. Aqui há fenómenos de rara beleza humana.
Rara beleza



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terça-feira, 12 de junho de 2012

Pingar

Saímos à procura do ouro do mês de Junho. Os Santos Populares pedem sardinha assada. Nós temos de a encontrar. Mas não se pense que a tarefa é fácil. Fomos até à Barra de Setúbal. Nada. Mudámos de rumo até à Barra de Lisboa. Nada. Ainda para mais, a Lua não ajuda à nossa demanda. Talvez com a Lua Nova, na próxima semana, ela, a sardinha, dê o ar da sua graça. Sabemos que não anda longe, mas a sardinha é conhecida pela sua astúcia e rapidez de fuga aquando do cerco. Talvez amanhã volte a pingar na rede e no pão. Esse é o nosso desejo. É nisso que acreditamos sempre que saímos do porto. Amanhã é outro dia.

Procura



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sábado, 9 de junho de 2012

Desconhecido

E ali estava ele. Tranquilo. De olhos postos no Mar, pensava no que estava para além do horizonte. A incógnita mantinha-se. O desejo de avançar aumentava. Observava, reflectia e aquele apelo insistia em chamar por ele. O desconhecido abanava-o, fazia-o sentir-se vivo e puxava-lhe pela mão. Resistiu. Certo dia não aguentou mais. Lançou-se nas asas do destino. Aceitou de bom grado o sal no corpo e o vento no rosto. Entregou-se ao Mar de corpo e alma. Passou a fazer parte dele. Aprendeu com ele. Ganhou forças com ele. Até hoje nunca mais o deixou.
 
Desejo



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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Visita

Sesimbra fica para trás. O dia também. A traineira Estrela do Mar regressa a Sines. O Mar não tem fronteiras. Já fomos visitas e neste dia fomos visitados. Sabemos que o peixe manda. O pescador anda sempre no seu encalço. O curioso é que a frota de Sesimbra e a de Sines pescaram, lado a lado, junto à Barra de Lisboa, e ainda com a companhia da traineira Segredos do Mar, de Setúbal. Se contarmos as milhas percorridas por todas estas traineiras, o resultado vai dar muitos zeros à direita. Nem falo em fazer as contas ao gasóleo… O peixe manda. O pescador segue o seu destino.
Serra e Mar


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