terça-feira, 20 de novembro de 2012

Interrogações

Continuávamos à procura da tão desejada sardinha. Três intensas horas de navegação de Sesimbra a Cascais, onde arriscámos a nossa sorte. Dou por mim a olhar para o infinito que o horizonte azul esforça-se por encontrar. Não me chega. Ergo a face e elevo o pensamento até aos céus. Quantas interrogações… Onde vamos pescar? Será que vamos conseguir fazer um bom lance? O azul envergonhado deu-me esperança, as nuvens plumbiosas deram-me desalento. Os brancos intermitentes trouxeram-me de volta ao convés e à espuma que bramia à passagem da proa. Estremeci com o toque da buzina que anuncia a largada. Fechei os olhos e regozijei-me com um sorriso interior. E a rede já saía e desenhava um círculo perfeito. Nesse dia, o Homem ganhou à sardinha.

Pensamentos


(Text & Photo - Luís Pinto Carvalho - All Rights Reserved)

Paixão

Após semanas de ausência, hoje volto a pegar na pena. A Luís Adrião continua seguindo o seu destino e as fainas têm sido promissoras. Confesso o aperto das saudades que tenho sentido de poder estar aqui a partilhar convosco a minha – e também vossa – Vida na Traineira. No entanto, quando a terra fica para trás, as horas perdem o sentido. Não há hora certa para almoço e jantar. Não há hora certa para estar com a família e com os amigos. Não há hora certa para vos mandar algumas palavras. A verdade é que vivo intensamente a paixão pelo Mar, tão forte quanto a que sinto pela lavra destes fragmentos salgados. Mas nem sempre é possível vos trazer ambas de mãos dadas. Fica a promessa de novas estórias, com a regularidade que o Mar permitir. Espero que sejam do vosso agrado.



Nova



(Text & Photo - Luís Pinto Carvalho - All Rights Reserved)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Incerteza


Chega a hora de jantar e os ponteiros acelerados caminham para as oito horas da noite. Eu não. Em jeito de passeio de domingo, caminho tranquilo pelo cais, rumo ao meu local de trabalho. Persiste o cheiro a peixe no ar, embora o cais vestido de cimento nada denuncie. Ainda tenho tempo antes de embarcar. Sento-me nas escadas e olho para a Luís Adrião. Começo a tentar imaginar a noite de faina que poderei ter. Há o reconhecimento da incerteza e da incógnita que cada dia nos traz. Recordo antigas pescarias e estórias que cada tábua pode partilhar. Embarco. Uma noite no beliche. O motor é a minha música de elevador. Está calor, muito calor. O odor do gasóleo toma conta da atmosfera e mistura-se com o da conserva que um camarada janta a estocadas de navalha. Com mais uma corrente de ar, contemplo um nevão de escamas perdidas. Adormeço. A noite passa. O sol rasga a terra. Acordo. A rede sai. A cavala entra.


Incógnita
 
 
(Text & Photo - Luís Pinto Carvalho - All Rights Reserved)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

À carga


Pelos faróis de navegação, há uma sensação imediata da chamada carga, o carrego e a expressão deliciosa da “estrela a beber água”. Na proa, os 12 pés estão muito lá para baixo. Cá em cima, a cavala, muita, às toneladas. Não há mais nenhuma traineira no cais. A chegada é solitária. Está tudo a postos. Perto de 20 homens vão conseguir processar 35 toneladas de cavala em apenas 3 horas. Confusão não existe. O Mestre opera a grua de descarga das caixas isotérmicas, as chamadas dornas. Tem um sorriso contido. Quase não se percebe. Dele. Quando a luz deixa, as farripas de cabelo, suadas e coladas à testa, perdem a vergonha e mostram-se para além da pala do boné. Orgulho. O cenário é apocalíptico ao senso comum, mas, passados meros segundos, aquela pseudodesorganização funciona ao milésimo. Todos sabem onde estar e o que fazer. Aqui há uma companha. E, numa voz de comando, o Mestre manda soltar amarras para mais uma faina.
 
Cavala


 
(Text & Photo - Luís Pinto Carvalho - All Rights Reserved)

terça-feira, 17 de julho de 2012

Na mira

Falhámos a última Lua Nova, mas agora que o Quarto Minguante começa a descair, a sardinha está a regressar forte e feio, de Norte a Sul. No entanto, há que dar mérito a quem a procura e onde palpita que ela estará. Recordo os tempos das sondas de agulhas, a preto e branco, as largadas à branca, no sítio certo, na hora exacta, mestres na proa, atirando pedras para a estiva, obrigando o peixe a dar ao rabo para a bomba. Na altura em que os sonares não passavam de ficção científica, sondas a cores nem pensar. Nunca nos deveremos esquecer que foi o Homem que inventou a tecnologia. O saber, a gira, o golpe de rins e, acima de tudo, o saber, são todos dele. Na mira, a Luís Adrião avança para mais uma faina.
Avança


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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Horizonte

Partimos rumo ao desconhecido. Quando abandonamos terra, tornamo-nos numa outra pessoa em nós próprios. Assumimos uma outra identidade. Aquela salgada, que o meio assim o exige e que nos molda. Os olhos estão postos no horizonte. Mas levamos connosco todos aqueles que ficaram para trás. O significado da palavra família ganha outros contornos. Afinal, nestes singelos 23 metros de madeira passamos mais tempo do que com aqueles a que convencionalmente chamamos família. No entanto, embalados pela melodia da maresia, aqui também há família. Laços fortes que nos unem. Sorrisos que só têm valor quando se valorizam os arrufos. Quando alguém tem a coragem de reprimir, de ser directo, olhos nos olhos, traduz-se em respeito e preocupação. Aqui há família. Aqui há fenómenos de rara beleza humana.
Rara beleza



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terça-feira, 12 de junho de 2012

Pingar

Saímos à procura do ouro do mês de Junho. Os Santos Populares pedem sardinha assada. Nós temos de a encontrar. Mas não se pense que a tarefa é fácil. Fomos até à Barra de Setúbal. Nada. Mudámos de rumo até à Barra de Lisboa. Nada. Ainda para mais, a Lua não ajuda à nossa demanda. Talvez com a Lua Nova, na próxima semana, ela, a sardinha, dê o ar da sua graça. Sabemos que não anda longe, mas a sardinha é conhecida pela sua astúcia e rapidez de fuga aquando do cerco. Talvez amanhã volte a pingar na rede e no pão. Esse é o nosso desejo. É nisso que acreditamos sempre que saímos do porto. Amanhã é outro dia.

Procura



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